O que é virtude?

Neste post você entenderá rudimentos do que é o homem, suas paixões e, principalmente, a definição de virtude.

FILOSOFIAMORAL

G. S. Ferreira

8/25/20255 min read

Introdução: o bem existe?

Quando falamos de virtude, pressupomos a ideia de bem, pois virtude nada mais é que o conjunto de hábitos estáveis que nos aproximam do bem. Então que seria esse "bem"?

Bem não é uma invenção arbitrária, como muitos pensam. Bem é um dado objetivo, relacionado à finalidade das coisas. Por exemplo, qual é o fim do copo? Ser bebido. Quando esse fim é realizado, o copo atinge o seu bem, de modo que é mal usá-lo, por exemplo, como um martelo. Então mal e bem estão ligados à finalidade das coisas. Desse modo, quando dizemos que as virtudes nos aproximam do bem, é porque elas aproximam o homem de seu fim, que é a visão beatífica de Deus na glória celeste.

Podemos concluir, portanto, que o bem existe na medida em que o fim das coisas existem, pois o bem de algo é a realização de seu fim; enquanto o mal é a inadequação ao fim.

O que é a natureza humana?

Após entender que virtude são hábitos estáveis que nos aproximam de nosso fim, podemos nos perguntar "quais são esses hábitos?". Esses hábitos tem a ver com a nossa natureza humana.

O homem é um animal racional composto de corpo e alma. A nossa alma possui três potências principais: inteligência, vontade e sensibilidade. Inteligência e vontade são nossas potências propriamente racionais, enquanto a sensibilidade, que se divide em sentidos e paixões, é a parte mais animal.

Respondendo a pergunta de modo sucinto, a natureza humana é de animal racional.

Paixões: inimigas ou amigas?

Através dos sentidos, o homem conhece a realidade e fornece material para a inteligência trabalhar. No entanto, a forma como nossos sentidos percebem a realidade provocam certas reações, devido ao nosso apetite sensível. O apetite sensível é uma potência da alma humana que temos em comum com animais superiores pelo qual reagimos ao nocivo ou útil, agradável ou desagradável. É uma reação que terá sempre por objeto algo sensível, isento de carga moral, pois precede o juízo racional, de modo que o erro, quando o apetite deseja algo ruim, não está em ter o desejo ruim, mas aderir com a vontade (ver Figura 1) à paixão desordenada. É essa 'reação' do apetite sensível que chamamos de paixões.

Antes de respondermos a pergunta, vamos entender melhor como essas paixões são produzidas e quais são elas.

O mecanismo

O homem possui sentidos internos e externos. Os externos captam os estímulos exteriores (luz, som, cheiro, toque, etc.), pelo qual o sentido interno chamado senso comum reúne tudo, de modo que a realidade não fica fragmentada. Após isso, a imaginação, outro sentido interno, transforma isso em imagens mentais sensíveis, que muitas vezes ficam guardadas na memória, um terceiro sentido interno. Porém, o sentido interno que nos interessa aqui é a cogitativa (chamada estimativa nos animais), que julga, com auxílio da razão humana, bens particulares. E a partir da "sentença" desse julgamento o apetite sensível irá se inclinar.

Figura 1. Este diagrama exemplifica o funcionamento das potências do homem, de modo didático.

Figura 2. Neste diagrama, podemos ver que os sentidos fornecem matéria (os estímulos), o senso comum unifica, a imaginação produz imagens, a cogitativa, com auxílio da razão, julga as imagens, o apetite sensível reage e as paixões são resultado dessa reação.

As paixões

As paixões não são más em si mesmas. Na verdade, são neutras. Não há maldade em sentir fome, mas há em roubar para comer sem necessidade real; não há maldade em sentir desejo por um alimento, há maldade se você come mais do que necessita. Ou seja, o sentir não é mal, mas sim o assentir. Antes de prosseguirmos, vale ressaltar que há 11 paixões, seis do apetite concupiscível (tende ao bem fácil) e outras cinco do apetite irascível (tende ao bem difícil). Sendo as concupísciveis:

  • Amor;

  • Ódio;

  • Repulsa;

  • Desejo;

  • Alegria;

  • Tristeza.

E as irascíveis:

  • Esperança;

  • Desespero;

  • Audácia;

  • Medo;

  • Ira.

Aqui, não iremos nos aprofundar na definição de cada uma, apenas mostrar que existem. Respondendo a pergunta do tópico, podemos dizer isto sobre as paixões: nem amigas, nem inimigas — neutras.

Figura 3. Divisão do apetite sensível e lista das respectivas paixões.

Só que tem um porém. As paixões são, de fato, neutras. Como eu disse, ninguém é mal por sentir um simples desejo. Porém, muitas vezes nossa cogitativa "julga mal" e isso acaba comprometendo a resposta do apetite sensível. E é aí que, muitas vezes, buscamos o mal como um bem e rejeitamos o bem como um mal. Essas são as paixões desordenadas, que precisam ser ordenadas pela razão.

O papel da razão

A inteligência humana tem como fim a verdade, enquanto a vontade tem como fim o bem. Há, porém, uma hierarquia entre ambos, onde a inteligência deve governar a vontade, pois a vontade não consegue querer um bem que não conhece (ver Figura 1, onde o papel de conhecer pertence à inteligência), pois pode correr o risco de querer um mal. Claro que, não raramente, a inteligência pode considerar um bem algo que é mal, ou vice-versa. Isso faz com que a pessoa busque males voluntariamente, embora pense que sejam bens.

Enquanto a inteligência governa a vontade, a vontade deve governar a sensibilidade. É a vontade, propriamente, que ordena as paixões. E quando há uma adesão da vontade a um bem de modo estável e deliberado, apesar dos esforços das paixões de nos impedir, há virtude.

Há, portanto, dois pilares:

  • Conhecer o bem (dar direção à vontade)

  • Buscar o bem (não basta saber e não fazer)

E é com o conhecimento do verdadeiro bem que não caímos nas desordens das paixões, pois o que a cogitativa não "julgou bem", o intelecto julgará.

É por essa razão que muitos se queixam que parece haver duas vontades em si: uma que deseja o ilícito e uma que sabe o certo. Pois bem, você que se depara com isso está diante de um impasse entre a razão (conhecer e querer o bem) e as paixões desordenadas (querer somente os bens sensíveis do objeto observado). É seu dever, pois, fazer o que é certo, não o que manda suas paixões, e isso consiste, em boa parte, a virtude: ordenar suas paixões.

Conclusão

Em resumo, tornamo-nos virtuosos quando, de modo habitual e deliberado, repetimos boas ações que nos aproximam de nosso fim último, que frequentemente se traduz em ordenar nossas paixões desordenadas. Busquemos, pois, praticar as virtudes para que, enfim encontremos a maior felicidade possível nesta vida e a verdadeira felicidade na outra.

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